A nova cara da política espanhola

Não houve até então uma eleição tão indefinida na Espanha, nem tanta desconfiança sobre o peso dos indecisos. Nunca vimos tantas filas para os que foram votar por Correio, nem tanta frustração dos que estavam fora do país por conta das dificuldades em exercer seu direito à democracia. Não há precedentes de tantas notícias falsas, ou como detectado desde o Reino Unido, operações fraudulentas com “bots” situados na Venezuela gerando ódio nas redes e exaltando os ânimos do eleitorado. Sabíamos todos que esta não era uma eleição normal, pois nunca na alternância entre PP e PSOE houve uma extrema-direita superando a cifra de dois deputados.

O assunto agora é sério: não somente pelas duas dúzias de deputados eleitos pelo Vox, mas porque o Partido Popular, para conter seu crescimento, precisou se portar como Vox – o mesmo aconteceu com Ciudadanos, em outro grau. Vox, de certa forma, ganhou antes de começar a votação   

A Espanha, ontem, começou a mudar sua face política. Foi a primeira operação na estética eleitoral – dentro de um mês, em 26 de maio, chega a partida de volta. Eleições para o Parlamento Europeu (decidindo o essencial a cada país), 12 governos autonômicos e oito mil municípios. Dessa dupla passagem pelo centro cirúrgico eleitoral, sem anestesias, sairá uma Espanha bastante diferente.

O desfecho nada favorável ao Partido Popular, com uma perda de quase metade dos assentos em relação ao último pleito e queda vertiginosa em número de votos, ilustra um país deveras distinto em muitas províncias. Ciudadanos e Vox herdaram esse espaço. Vox consegue um substancial grupo parlamentar, um êxito, porém distante da euforia vivida na reta final da campanha. Retrocesso anunciado, porém não menos doloroso; Unidas Podemos outrora ponderava ultrapassar o Partido Socialista e agora se vê ultrapassado pelo partido de Albert Rivera como terceira força. Ciudadanos quase dobrou seu tamanho no Congresso – não alcança a liderança da direita, porém com uma manobra radical poderia até entrar em um eventual governo com Pedro Sanchez. Terá muitas pressões para para pensar em que pactos tomar. Por último, triunfo inegável do PSOE, apesar da campanha que teve alguma polêmica, slogan pouco claro e organização com os debates a melhorar. De toda forma, objetivo alcançado.  

Para a partida de volta, em 26 de maio, ainda que sejam em outros campos eleitorais, há que mudar nomes e sobretudo virar o disco. O refrão “Sr. Sanchez não tem legitimidade pois dispõe de apenas 84 deputados” não funciona mais – e volta-se contra seus autores Casado e Rivera, que perderam o rumo. Viam-se já em La Moncloa, sede do governo espanhol – e talvez cheguem, pois são jovens. A ansiedade demonstrada não lhes beneficiou.

Em 26 de maio temos outro festejo eleitoral. É preciso novo repertório, caso contrário a população seguirá o conselho do genial chargista Forges, em uma velha charge que fez sucesso nas redes estes dias: “¿Por qué tienes la tele apagada? Porque si la enciendo, salen”.

Manuel Campo Vidal, Next IBS, opinião, espanha

 

Manuel Campo Vidal é Jornalista e presidente da Next IBS

 

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