A sociedade reivindica a desobstrução política

“Estabilidade” é a demanda mais escutada entre a população espanhola nesse momento, em qualquer reunião, encontro ou colóquio.

“Estabilidade” é a demanda mais escutada entre a população espanhola nesse momento, em qualquer reunião, encontro ou colóquio. Já superamos todos os processos eleitorais – os previstos, para municípios, comunidades autônomas e Parlamento Europeu, em maio – e a surpresa das eleições legislativas em abril, para definir quem governaria a Espanha. A sociedade fez a sua parte, com uma participação de 75,75%; melhor marca dentre os últimos pleitos. Agora seria a vez dos políticos. Todavia, passados quase dois meses, seu trabalho deixa a desejar. Permanece a incerteza, ainda que não se contemple outro horizonte além de um governo presidido por Pedro Sánchez, ou repetição de eleições, como já aconteceu em 2016 – ano em que por pouco não foi preciso uma terceira! Não há alternativa. Pede-se uma solução e, sobretudo, exige-se que haja estabilidade: para as empresas, para o emprego, para os investimentos externos.

Começa a pairar a suspeita de que o que mais agrada a alguns dos jovens políticos com pretensão de governar é viver em campanha eleitoral. São aclamados pelos correligionários, recebidos com música e festa. Sonham em alcançar governos, liderança, e acreditam em pesquisas feitas de acordo com suas aspirações. Governar, ou deixar governar, já é bem menos interessante. Porém, é isso que exige a sociedade civil: que se desbloqueie a política e, em um exercício de responsabilidade, facilite a formação de um governo. Não faz sentido conclamar contra o nacionalismo catalão para depois empurrar a ele como única saída de possibilidades aritméticas de formar um governo.

Adolfo Suárez fundou, em 1982, o Centro Democratico y Social, como um partido de centro; possível chave para obtenção de maioria como os liberais na Europa. Uma força – que em 1986 elegeu 19 deputados – com a qual centro-direita ou centro-esquerda poderiam contar, evitando o alto preço do apoio de nacionalistas. Contudo a soma insuficiente, e mais tarde os problemas de saúde vividos por sua família, arruinaram tal projeto. Repete-se agora a oportunidade, com mais chances pois, por conta do bom número de deputados eleitos, Ciudadanos poderia converter-se na chave para a maior parte das instituições do país, quisesse Albert Rivera. Não parece empenhado em jogar esse papel tão necessário para a estabilidade na Espanha. Os órgãos empresariais pediram. Até Mariano Rajoy dice. Demonstrou Manuel Valls em Barcelona, o que custou sua expulsão. Pedem seus parceiros europeus, e também vozes internas em seu partido.  

Ocorre que, seja com a abstenção de Rivera, ou de Pablo Casado, ou da Esquerra Republicana (se é que Pablo Iglesias aceite cargos no governo que não sejam ministérios), é preciso formar um governo. E ponto. Que Pedro Sánchez não pratique o “marianismo”, deixando que o tempo arrume tudo. Escreveu Teodoro León Gross: “desde Moncloa não se propõe nada ao Ciudadanos além de fazê-los repetir ‘não é não’, como Sánchez em 2016”. E que não não busque refúgio na Europa, como fazia Felipe González, em parte por fugir das mesquinharias da política, avisa Fernando Ónega. Correto. As fotografias da semana em Bruxelas, com o presidente espanhol falando em particular – ou seja, negociando – com Emmanuel Macron e Angela Merkel lembram as de Felipe González com Helmut Kohl e François Mitterrand. A mesa de quatro pés que dirige a Europa, com França e Alemanha, balança se não entra Espanha como substituta do Reino Unido e com uma Itália cada vez mais eurófoba de Matteo Salvini. Sánchez é Espanha, porém representa também a social-democracia europeia. Será ainda mais respeitado ao conseguir formar um governo estável. 

Convencidos de que a política não anda se não recebe o impulso da sociedade, há manifestos e ações em andamento. Duas campanhas eleitorais em dois meses e mais dois para costurar pactos é suficiente. Carecemos certeza e estabilidade. Urgente.  

 

Manuel Campo Vidal, Next IBS, opinião, espanha

 

Manuel Campo Vidal é Jornalista e presidente da Next IBS

 

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