Cenário pós-eleitoral: a Espanha tem uma nova cara política

A última edição do Foro Next analisou os resultados do pleito realizado no domingo 28 de abril.Os professores do Master em Comunicação Política da Next IBS Antonio Hernando, ex-portavoz do Partido Socialista no Congreso de los Diputados; Marta Martín, catedrática e integrante da executiva do Ciudadanos; Santi Vila, ex-secretário da Generalitat de Cataluña, Ignacio Urquizu, professor de sociologia; Francisco García Pascual, vice-reitor da Universitat de Lleida participaram da análise pós-eleitoral organizada e dirigida pelo presidente de Next Manuel Campo Vidal.    

Após a jornada eleitoral do último domingo, marcada pela massiva participação popular com pouco mais de 75% de presentes – maior cifra desde 2004 – O Foro Next celebrou um debate com especialistas em política para analisar o resultado das urnas, os quais também lecionam no master em Comunicação Política Avançada da Next IBS.

Antonio Hernando, ex-portavoz do PSOE no congresso, definiu o resultado das urnas em três pontos: “A noite de 28 de abril teve um grande vencedor: Pedro Sánchez e o Partido Socialista; um grande perdedor: Pablo Casado e o Partido Popular; uma estratégia claramente destruída: a de todos que traçaram como objetivo de campanha derrubar o Presidente del Gobierno. Isso inaugura um momento político no qual necessariamente deve haver uma ferramenta imprescindível, que é o diálogo, a negociação, o acordo e o pacto.   

Sobre a hipótese de eventual repetição das eleições, como já aconteceu em 2015, Hernando prevê que não voltará a ocorrer: “Espero que seja uma legislatura em que tenhamos aprendido com o passado, o que significa que ninguém considere a possibilidade de realizar um novo pleito. Não se vão repetir eleições, entre outras coisas, porque neste momento a governabilidade gira em torno do Partido Socialista e o que pode fazer”.

Marta Martín, da executiva do Ciudadanos, disse que: “nós, como partido, estamos muito satisfeitos. Em menos de três anos ampliamos em quase 80% nossos resultados nas urnas. Há uma parte boa e uma parte ruim, que não conseguimos chegar ao número de assentos para poder governar com o PP pois estes tiveram resultados muito ruins”.

“Lamentavelmente creio que tivemos uma campanha na qual Pedro Sánchez foi quem melhor usou a campanha do Vox, alardeando muito que ‘o lobo está chegando’ e muitas pessoas compraram a ideia, mesmo a contragosto, se vendo obrigadas a votar PSOE, como na Catalunha onde as setores independentistas aparecem como reação aos populismos de direita”, ponderou Marta.

Por sua parte, Santi Vila, que foi membro do governo catalão, comentou a oportunidade de diálogo que esses resultados propiciam: “minha valoração sobre as eleições é esperançosa. Se deixamos de lado os votos da Catalunha, é certo que mais de 10 milhões de cidadãos espanhóis validaram e confiaram em partidos que apostam pelo diálogo e conciliação. Algo que só pode ser comemorado, com alegria desde Barcelona e de toda Espanha”.  

Vila também ponderou sobre o número de assentos obtidos por cada partido e o transcorrer da campanha eleitoral: “Esmiuçando os resultados constata-se, por um lado, que Unidas Podemos fez uma campanha bastante honesta, com a Constituição nas mãos, com um sentido de Estado importante; por outro, que Ciudadanos atingiu grande parte do objetivo traçado, com o apoio de muitos por ser um partido renovador, com vocação liberal e disposto a realizar os ajustes necessários; e o Partido Socialista, que apostou num tom conciliador, com diálogo, sobriedade… obteve a aprovação necessária. Uma série de ingredientes em três direções diferentes deveras positivas.    

As pesquisas acertaram?

Em um pleito marcado pela incerteza sobre a força com a qual Vox entraria no cenário político, as pesquisas tiveram maior presença que em qualquer outro período eleitoral. Por isso os participantes do Foro Next realizaram um repasse entre o que apontavam as sondagens e o que de fato concretizou-se nas urnas.  

Vice-reitor da Universitat de Lleida, Francisco García Pascual explicou como foi essa transformação da face política da Espanha: “Há um elemento chave, a vitória pessoal de Pedro Sánchez, e também o aumento do bloco progressista, juntando PSOE e Unidas Podemos, nos últimos três anos, em quase 10%. A direita também cresceu. Em relação à 2016 houve um aumento de 146 mil votos, e os partidos nacionalistas obtiveram um aumento de 25% no período”.

Nesse sentido, García Pascual ponderou que estes três movimentos tectônicos explicam a transformação política da política espanhola, na qual a esquerda se recompôs ganhando votos de eleitores que outrora preferiam não comparecer às zonas eleitorais. A direita logrou alguns poucos votos desse eleitorado, porém também pela migração de votantes do Partido Popular para Ciudadanos ou Vox. “O terceiro elemento é que, por parte de quem não vota ou eleitores de partidos menores, muitos eleitores votaram por medo de uma vitória de extrema direita ou de partidos nacionalistas”, ilustrou.  

O sociólogo Ignacio Urquizu lembrou o quão próximas mostraram-se as pesquisas dos resultados finais: “Sempre que falamos delas temos certa prudência, porém nesta ocasião tanto a ordem quanto o número de assentos foi bastante próximo. Consolidou-se o que era esperado: uma fragmentação bastante grande entre a direita. Em cinco Comunidades Autônomas Ciudadanos obteve mais votos que PP, isso inaugura um cenário nesse campo onde há muito por se jogar”.

“A ascensão da extrema direita, como ocorrido em outros países, aqui não se configurou. Como se advertia, trata-se de um partido de eleitorado muito localizado, não apenas ideologicamente, sim como um eleitorado de classes médias-altas, classes populares… e não penetrou na Espanha rural”, esclareceu Urquizu.  

“As sondagens chegaram bem perto do resultado; criticamos muito as pesquisas e logo nos demos conta que algumas apresentaram resultado bastante fidedigno, o que é bem positivo” apontou Antonio Hernando. Marta Martín, em consonância, indicou que as enquetes não estiveram distante do que veio das urnas: “Creio que houve pesquisas muito próximas e pesquisas que na última hora estiveram na linha da campanha do medo incitada pela esquerda e pelo independentismo para melhorar resultados. Sempre tivemos muito claro que sairíamos com um bom resultado e acreditamos que a população reconheceu o trabalho que fizemos”. Santi Vila fez o seguinte balanço: “Surgiu Vox, PP sofreu uma derrota histórica e lamento que políticos bons tenham ficado em uma situação ruim, porém creio que todos têm suas lições a aprender. Em qualquer país ocidental estabilizado, quando se afasta do centro, há perda de eleitores”   

O domingo 28 de abril desenhou um novo mapa político na Espanha, no qual o Partido Socialista ganhou as eleições (123 assentos); Partido Popular registrou perda importante (66); Ciudadanos saiu acima do esperado (57); Unidas Podemos perdeu o posto de 3a força (42); Vox aparece como nova força política porém com menos vagas que muitas pesquisas indicavam (24).

“Estas eleições representam mais um passo na transformação política da Espanha. Começaram há quatro anos com o aparecimento de Podemos e Ciudadanos, e ontem se produziu um momento de grande importância. Há a ruptura do Partido Popular e o aparecimento da extrema direita; porém o resultado completo não está concluído pois nos resta ainda o 26 de maio, quando acontecem as eleições europeias, municipais e em muitas comunidades autônomas” concluiu o jornalista e presidente de Next Manuel Campo Vidal.

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