O poder político disputado em cinco finais

Votamos duas vezes em menos de um mês, 28 de abril e 26 de maio. Votamos duas vezes em menos de um mês, 28 de abril e 26 de maio. Mas ainda não sabemos quem efetivamente governará a Espanha, seja nacional ou regionalmente. Quatro votações finais entre os representantes legislativos decidirão o resultado. E resta a Europa, a quinta final.

No sábado 15 de junho será jogada a primeira: constituição, precisamente ao meio dia, dos 8.131 municípios espanhóis, como quando se jogam partidas simultâneas na última rodada para saber quem é rebaixado e quem garante vaga na Champions. Que os resultados de um estádio não interfiram em outro. Haverá surpresas: por exemplo, saber quem governará Madri e Barcelona! Aparentemente seriam Martinez Almeida do PP e Ernest Maragall da Esquerra respectivamente; porém não estão fora da jogada Begoña Villacís do Ciudadanos e Ada Colau do Catalunya en Comú.

Um personagem como Manuel Valls, que enxerga a política a longo prazo, trouxe uma referência de estadista que, esperamos, estimule alguns jovens que ingressam na vida política. Com longa carreira política na França e espanhol de nascimento, despediu-se da política francesa em 2018 para concorrer ao governo municipal de Barcelona. São as duas grandes incógnitas municipais, no entanto se calcula que em torno de 1000 cidades não há certeza no que acontecerá. Depende dos pactos, de possíveis abstenções, mas também das desvios na fidelidade dos partidos e de rivalidades pessoais irreversíveis.

Nas seguintes semanas formação de Diputaciones, governo basco, das Ilhas Canárias e Baleares. Cujo resultado depende dos pactos a nível nacional, porém também do que transcorra nos ayuntamientos com possíveis impugnações e recursos. Grande orçamento em jogo: na Diputación de Barcelona por exemplo 300 milhões de euros.  

A terceira final, as votações nos Parlamentos de cada comunidade autônoma, não será simultânea – deverá ser resolvida nas próximas semanas. Valência teve sua eleição em 28 de abril, e sabemos que governará o socialista Ximo Puig através da coalizão entre PSOE, Podemos e Compromís. Já em Castela e Leão, ou Aragão, ninguém aposta o resultado. Em Navarra a situação renderia uma telenovela, com intrigas e paixões.

A quarta final – equivalente a La Liga, a primeira divisão do futebol espanhol – começa a ser preparada no Congreso de los Diputados. Ninguém tem dúvidas que vencerá o time de Pedro Sánchez, atual presidente do governo. Porém não se sabe com que escalação, uma vez que seguramente será preciso uma segunda votação para obter maioria. O líder socialista prefere um governo apenas com PSOE, ainda que Pablo Iglesias esteja empenhado em uma coalizão com o Podemos. Albert Rivera, do Ciudadanos, só fala no “governo Sánchez e seus sócios”, em referência aos independentistas catalães. Tais sócios, entretanto, são os mesmos que não aprovaram o orçamento geral há poucos meses, causando a nova eleição em 2019, não sendo muito confiáveis. Não contabilizando Esquerra Republicana e PDeCat, a solução paradoxalmente está nas mãos de Rivera. Ou do também derrotado nas elecciones generales pelo PP Pablo Casado.

Essa é a grande final espanhola, todavia não esqueçamos da europeia. Recém fechavam as urnas do continente, Sánchez jantava com o presidente francês Emmanuel Macron. Talvez a oposição não tenha percebido que a importância da Espanha no continente subiu muito. Com o impacto do Brexit – exaltado em em Londres por Donald Trump – o eixo franco-alemão carece um terceiro pilar sólido e confiável para a manutenção do tabuleiro europeu.

A sustentação por parte da Itália está quebrada. Atenção com Salvini, que pretende ser o Trump europeu e Pedro Sánchez ser o anti-Salvini. Macron e Sánchez vão como líderes de liberais e social-democratas na União Europeia; os alemães, ainda que com uma liderança enfraquecida, estão de acordo. O objetivo comum é parar os populismos de extrema direita em todas suas formas: eurofóbica, xenofóbica e ultranacionalista. Rivera, se quer ser o Macron espanhol, deve trocar essa partitura. Aliar-se com o Vox – partido ultraconservador que na última eleição conseguiu 24 assentos -, ainda que discretamente, é desafinar. Tempos incertos e apaixonantes. Todos os resultados pairando pelo ar. Cinco finais em dois meses.  

 

 

Manuel Campo Vidal, Next IBS, opinião, espanha

 

Manuel Campo Vidal é Jornalista e presidente da Next IBS

 

Deja un comentario