Quem saberá o próximo governo da Espanha?

Estamos em uma campanha eleitoral bastante distinta a três semanas de uma grande incógnita: quem governará após o pleito de 28 de abril. Paradoxalmente, a única certeza que temos é a existência de uma grande incerteza.

Manuel Campo Vidal

 Há de se ter em conta a maré de indecisos pela perplexidade de uma campanha confusa e, muito por conta disso, que apenas decidirá o voto na última hora. Por isso as pesquisas são apenas indicativos. Se costumávamos dizer que as sondagens mais fiáveis eram as de dois meses antes da eleição, nem sequer agora temos um número seguro. A imensa capacidade de amplificar um incidente ou uma declaração infeliz através do incrível sistema coletivo de comunicação manejado em nossos telefones ou computadores pode destruir em dois dias qualquer tendência de voto que pareça firme. Dirigentes de distintos partidos talvez devessem sair de férias estes dias.

A campanha é absurda porque a direita argumenta que Pedro Sanchez, do Partido Socialista, é refém dos independentistas – quando na verdade foram estes que frustraram seu plano de levar a legislatura até 2020, como pretendia. É estranha porque o partido Ciudadanos, que se proclama liberal, jura que nunca, nunca, governará ao lado dos socialistas. O que choca com a própria definição de liberal e arruina a grande virtude de um partido de centro, poder pactar com direitas ou esquerdas para viabilizar a governabilidade do país. Fundado na Catalunha para combater o independentismo, Ciudadanos foi recebido em toda Espanha havia há décadas o desejo por um partido de centro, capaz de governar se for o caso; porém sobretudo pronto para formar coalizão com PP ou PSOE sem atuar como partidos nacionalistas – os quais cumprem esse papel por altos preços políticos e econômicos.

Felipe Gonzalez precisou recorrer a Jordi Pujol (da Convergência Democrática de Catalunha) e ao Partido Nacionalista Basco; José María Aznar igualmente tempos depois. Destes pactos vieram as cessões intermináveis à Generalitat de Catalunya e ao governo basco. Resultado: os anseios parlamentares propiciaram o desaparecimento, inclusive visualmente, do Estado Espanhol na Catalunha e País Basco, com a transferência de controle sobre rodovias federais e polícias autonômicas. Essas e tantas outras concessões agora denunciadas e com sua recentralização demandada. É certo que quando Adolfo Suárez reconstruiu o centro renasceu a esperança e, fracassado seu intento (também pelos motivos familiares que o afastaram da política), celebrou-se a chegada de Albert Rivera. Sua insistência agora em apenas pactar com o PP (e por tabela com Vox), entrega o centro novamente ao PSOE, que recupera votos do Podemos, e igualmente de alguma direita e das abstenções. A tendência está contrastada, porém sua dimensão e consequências não serão conhecidas até a abertura das urnas.

As eleições de abril próximo correm por duas pistas, Espanha e Catalunha. Não há ato em uma que não se fale na outra. E na Catalunha ocorrem fatos graves, como o descrédito da Generalidade e do Parlamento. Quim Torra, presidente da generalitat está bastante enfraquecido e o parlamento lhe impôs uma moção de confiança ou convocação imediata de novo pleito. Não fará nem um nem outro. Explica um familiar, em off, “está transtornado, apenas lhe interessa não parecer um traidor ante seu povo; aguentará o que for preciso para servir à causa de Puigdemont”. Nem a Candidatura de Unidade Popular (partido barcelonense) apóia Torra. E por falar em instituições desacreditadas, não percam o episódio em que a líder da oposição Inés Arrimadas lê alguns absurdos escritos por Torra. Cena que entrará no anais dos entreveros parlamentares.   

Manuel Campo Vidal, Next IBS, opinião, espanha

 

Manuel Campo Vidal é Jornalista e presidente da Next IBS

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